quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A viagem

Vai...
Fecha o olho e vai por entre a multidão.
Corre, não olhe para trás e segue teu rumo.
Vá em frente, com pressa, sem desanimo.
Não...
Não se arrependa da decisão tomada agora.
Os fracos são aqueles que esperam a hora chegar.
Os tolos são aqueles que crêem que permanecer é o melhor remédio.
Os imbecis são aqueles que ainda duvidam da caminhada.
Não creia em ninguém. Segue teu rumo e não se incomode com os gritos aflitos que te seguem.
São irmãos procurando impedir seu progresso.
São almas ignorantes que invejam tua coragem.

O caminho é longo e penoso, eu sei....
Mas não seria de outra forma a estrada que te leva ao cume.
Segue o cheiro da intuição, segue o caminho das pedras,
Que são justamente estes que te guiarão a satisfação.
Não seja bobo... a chuva vai cair, o vento vai bater mais forte contra teu peito, meu irmão...
Mas não é hora de desistir ao simples apelo da vida te mostrando que existem estradas mais curtas.
As tentações serão inúmeras, mas terá que se manter puro e resistente.
Saberá quando chegar ao seu destino...
Abra seus olhos... contemple a imagem de seu lar. Sinta-se em casa.
Sente, relaxe por alguns minutos
Sinta os raios do sol esquentarem este corpo cansado
Beba um pouco da água que te ofertam
E jamais tema se tiver que começar novamente

Percorre outra estrada
A caminho do desconhecido
Mas sempre milagroso

Mundo (n)OVO.

domingo, 7 de março de 2010

short story 1: Fragmentos humanos

Ana caminhava até o ponto para pegar o ônibus. De repente um frio na barriga fez-lhe parar no meio da rua... – Onde estou indo? - O que estou fazendo aqui nesse momento? Contudo, uma indagação mais profunda, e igualmente desconhecida lhe feriu a consciência... – De onde estava vindo? Olhou no relógio: eram 05h10min e não havia ninguém na rua para se certificar que seu relógio não havia parado. Deveria (caso encontrasse alguém) dar detalhes da sua situação? Prosseguiu... talvez uma idéia luminosa lhe fizesse recordar seus planos, seus deveres para aquele dia. Ao virar a esquina, viu um ponto de ônibus! Seria aquele o lugar onde estaria indo? Nova tristeza lhe abateu, pois nem o ponto nem as pessoas ali paradas lhe fizeram entender a estranha sensação que estava sentindo; continuava desconhecendo seu destino, e pior, sua origem. Com vergonha de perguntar, de expor suas angústias, Ana decide entrar no ônibus e seguir viagem. Sentou-se em uma poltrona na parte da frente do veiculo e relaxou. Encostou sua cabeça no acento e, não demorou muito, caiu num sono profundo. Dormiu tão profundamente que... se viu desesperadamente correndo para uma casa, uma pequena e velha casa. Os portões estavam fechados, o que impediu que sua corrida avançasse porta adentro. Quando entrou, viu sentados a mesa 2 crianças, uma menina de 4 e um menino de 7 anos. Ambos lhe pareciam familiar. De repente, ouve os gritos desvairados de uma mulher que vinha se arrastando até a cozinha. Era ela sua mãe, sua avó, uma conhecida? Ao que tudo indica, era alguém da família, mas que família? Ana não reconhecia ninguém, mas tinha a horrível sensação de que todos ali dependiam dela. Diante de tal cena, foi induzida a preparar algo para comerem. Diante do fogão, preparou uma rápida refeição, cozinhou algumas batatas, alguns ovos, fritou o bife e sentou-se a mesa. Apesar das crianças não paravam de brigar, Ana continuou absorta em seus pensamentos e procurou de todas as maneiras entender o que estava se passando diante de si. A velha sentada ao seu lado tentava desesperadamente reclamar de alguma coisa, falava sobre as crianças, e como elas tinham sido mal-educadas e desobedientes, que ela nunca mais ia tomar conta delas... mas Ana não tinha ouvidos para essa conversa. Seus pensamentos estavam em outra direção, em busca da compreensão de um mistério muito maior. Ana, como num movimento automático, levantou-se e se dirigiu para os quartos. Estes estavam totalmente desorganizados. Via um cachorro dormindo sobre uma das camas, bacias jogadas por todos os cantos, lençóis sujos e armários abertos, roupas pelo chão. O primeiro impulso de Ana foi de limpar tudo. Pegou a vassoura, varreu para fora toda a sujeira da casa. Com um rodinho e muita água, lavou o chão e as paredes com todas as forças de que dispunha. Ainda sem compreender o que estava se passando, jogou roupas e quinquilharias fora, apesar dos choros e resistências das crianças. A velha também não ficou nada satisfeita com a atitude de Ana que, sem pestanejar, colocou no lixo uma velha mala com porta-retratos velhos e quebrados, fotos manchadas. Ana sentiu uma satisfação tão grande ao ter-se livrado de tanto entulho que, ao fim do dia, depois de um longo banho tomado e de horas de paz com sua consciência, sentou-se num sofá a voltou a sentir-se incomodada, perdida. Ao olhar ao seu redor, não demorou muito para notar que apesar de todo o esforço, nada havia mudado tanto como queria. A casa continuava velha, assim como a própria velha continua rabugenta. As crianças continuavam brigando e se maltratando. Aliás, elas vestiam roupas tão sujas e pobres que Ana mal podia diferenciar a sujeita dos seus corpos da sujeira de suas roupas. Ana levantou-se e correu. Correu para fora, mas no quintal só havia mato e muita podridão. As paredes estavam sujas, trincadas. O chão estava afundando e parecia não conseguir suportar aquele peso por muito mais tempo. Foi nesse momento que Ana, ao se dar conta da degradação a sua volta, volta ao interior da casa e vê no fundo de um corredor algo reluzir feito jóia na parede. Aproximou-se com passos lentos. Queria sentir aquele momento como se fosse especial, único. Ela tinha encontrado algo de valor, algo que a faria suportar toda a degradação a sua volta, algo que traria a ela uma satisfação pessoal. Contudo, ao se aproximar notou que, pendurado na parede, havia um espelho muito velho e quebrado. Os pedaços que ainda resistiam refletiam um misto de imagens, igualmente estranhas e desfiguradas. Um ser incompleto, gasto, enfraquecido pelo tempo. Ana notou que esse ser formava um quadro perfeito com a casa, um quadro disforme, descontinuo, barroco, que a assustara sobremaneira. Ana sentiu um frio na barriga. Queria pegar todas as suas roupas e sumir, correr para longe, nunca mais ter que admirar imagem tão deprimente. Mas que roupas ela pegaria? Na havia jogado tudo fora? E as crianças? E a velha? O que seriam delas? Não podia simplesmente sumir e deixar aquelas pessoas ali, sozinhas. Elas dependiam dela. Mas ela estava cansada de tanta dependência, de tantos deveres. Onde estava sua alegria, sua satisfação? Perdidas no tempo, assim como sua imagem estava perdida em algum lugar naquele espelho. Lembrou-se então, como num ato de alegria instantânea, como havia imaginado sua vida: marido, filhos, uma carreira de sucesso, uma linda casa, uma aparência esbelta. Não era isso que havia conseguido. Mas como havia chegado a aquele ponto? Em qual momento, durante sua caminhada, havia tomado o rumo errado? Quando, exatamente, a vida havia lhe passado uma rasteira e decidido que a ela seria dada a cruz da insatisfação e da amargura? Não, não podia ficar a espera de novas decisões. Queria ela mesma retomar a vida, a vida que havia perdido. Não podia voltar atrás, mas podia sempre recomeçar, esquecer o passado e adotar uma nova identidade. Estava pronta. A mudança aconteceria naquela noite. E por que à noite, e não durante a manhã? Ana não estava pronta a responder a tal pergunta. Aliás, não queria pensar em mais nada, apenas concretizar seu plano. Esquecer o passado, esquecer o passado. O relógio tocou: 5 horas da manhã. Ana levantou-se, jogou uma água no rosto, calçou os sapatos e saiu... correndo, pois o ponto do ônibus estava longe, e estava com medo de perder a hora. Ana não hesitou em descalçar os sapatos e correr. Chegando ao ponto, as pessoas, que lhe pareceram familiar, cumprimentaram-na. Ana subiu, sentou, se ajeitou na cadeira, e dormiu. Quando acordou, estava num lugar estranho. Seu coração veio à boca quando se lembrara de seu sonho, daquelas crianças, daquela velha, daquela degradação. Tudo parecia tão real, tão pegajoso que podia sentir no cheiro da sua roupa, da sua pele, o aroma que exalava daquela casa. Ana desceu do ônibus, percorreu algumas ruas até chegar num ponto que lhe parecia um tanto familiar. Seu corpo parecia guiá-la. Ao virar a esquina, Ana, boquiaberta, não acreditou no que via. A velha casa! Ela não conseguiu se libertar da velha casa. Sentiu uma tristeza interior, uma angústia que foi logo absorvida por um fio de esperança. Pensou em entrar, tentar novamente limpar aquele lugar, na esperança de um dia fazer todos os seus sonhos renascerem. Se ela estava de volta, deveria tentar modificar o lugar em que se encontrava. E se isso não fosse possível, ainda poderia pegar o ônibus todos os dias na esperança de, ao adormecer, seus sonhos a levassem a um lugar onde, verdadeiramente, sentisse a satisfação de permanecer.

Ars Sants

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010